terça-feira, 25 de Agosto de 2009

ciclo das estações: o outono (em construção)















para o outono ser a tua casa tudo o que tens de fazer é celebrar

a extensa fermentação dos frutos a inebriante doçura das coisas

que sobreviveram à inquietação do fogo derramado em agosto


depois podes retomar a construção do silêncio o livro das horas

onde guardas as pequenas pedras que foste colhendo do chão

cada uma delas cantando para ti a cor da tarde que te seduziu


e vais ter tempo agora para desenhar no mapa a proa da viagem

a ânsia que te levou à colina azul com o mar em baixo a sonhar


aos poucos os moinhos vão voltar a murmurar com os pássaros

e os arvoredos vão flutuar violentamente contra o esquecimento

assim como assim os teus segredos e o teu alcantilado cansaço

desacorrentando-se no ar como o aguado perfume dos dióspiros


e se tudo te parece pacífico é porque já não circulas apressada

e retomas lentamente o teu lugar na casa o poemário do amor


coleccionando as arestas e as feições dos oblíquos fins de tarde

enquanto aos poucos os teus vestidos consomem a sua lucidez


segunda-feira, 24 de Agosto de 2009

ciclo das estações: o verão




















o verão é uma rima que tu podes levar pela mão para todo o lado

um cavalo que te meneia os frutos que acabaram de se arredondar

uma jarra onde cabem as flores deste mundo volátil e acidentado


o verão é um pátio onde a poesia se faz de buganvília em ebulição

colorindo os intervalos onde a cal não descarrega o peso da tarde

refazendo o perfume que o tempo das chuvas deteve no coração


o verão é um vestido que tu usas do avesso um vestido de renda

que te deixa ver as coxas o centro translúcido da tua ilha volante


um vestido que consomes para calar a tristeza de seres pequena

um vestido tatuado de rebentação feito de água e bainhas de sal

onde é possível escutar uma casa que te chama há tanto tempo

que se converteu numa palavra que tu usas em vez do teu nome


o verão é esse colar de cinzas que trazes enrolado nas tuas mãos

como uma memória lenta dos dias que passaste olhando à janela


e o verão às vezes é apenas uma mínima alegria que te envolve

como uma árvore que te dispersa como uma música que te vela


quarta-feira, 19 de Agosto de 2009

ciclo das estações: a primavera
















podes sair de casa descalça abrir as janelas as portas a boca
e desatar o sótão onde guardas os teus vestidos transparentes
a caixa de música que traz de volta as andorinhas a este lugar

podes trocar de nome mudar a cor dos olhos e fingir esquecer
que esperaste todo este tempo para voltar a flutuar à tua volta
e veres como o mundo tem uma maneira de compor as coisas

porque tudo renasce mesmo quando a noite é longa e o vazio
vocifera circulando-se como a radiação de uma estrela furiosa

porque tudo se solta da terra para pôr em evidência o mistério
com que o sol chama cada uma das sementes deste mundo
e podem ser rosas colinas podem ser estuários levando o mar
que tudo precisa apenas de um pequeno sopro para crescer

podes sair de casa sem deixar recado podes esquecer a hora
podes regressar ao jardim onde o tempo começou a desbotar

e colher as palavras que achares mais doces as mais bailantes
e depois pô-las no cabelo enquanto corres pela primavera fora

domingo, 16 de Agosto de 2009

ciclo das estações: o inverno
















o inverno dura quase todo o ano assim que fechas a porta de casa
talvez porque a casa é grande demais para o que esperas da noite
ou deixaste de acreditar que depois da morte há um lugar melhor

enrolas-te no cobertor e acendes a lareira com os livros de viagens
a música faz-te alguma companhia às vezes pareces falar sozinho
o disco que acabou de girar riscando o silêncio no trapézio do frio

adormeces tão lentamente que reconheces como tudo acontece
sílaba a sílaba um pensamento tranquilo desliza na água do sonho

de dia tens tudo para andar apressado mas as tuas pernas pesam
a tua cabeça anda ocupada a contar árvores e avenidas despidas
procuras alguém como tu mas é difícil perceber quem passa feliz
os nomes das pessoas ficam cabisbaixos no meio de tanta chuva

contudo há sempre um café onde salvas uma porção de felicidade
ninguém te espera mas é assim mesmo que se saboreia um café

depois tens o fim de tarde com os cães dos outros o vento gelado
o cachecol ronronando em vez de um gato à volta do teu pescoço

segunda-feira, 10 de Agosto de 2009

quase sem título

mãos que acariciam quando não entendem a vertigem do verso
que agasalham as palavras como se elas fossem apenas rosas
e não estas pedras que ainda não inventaram o fogo ou a roda

uma boca que possa beijar as ilhas por achar as dunas sitiadas
os nomes sem coração os espaços todos que ficam por habitar
quando a metáfora perde o indício da casa onde tudo se ilumina

perfume que iludisse o contrapeso do tempo o gosto a solidão
um búzio morto um melro sem asas quando o livro fica fechado

linho que enovelasse o poema como quem protege uma língua
e cada uma das formas de dizer que se ama ou que se renasce
frio que preservasse os aromas a ferida aberta ao esquecimento
o instante em que a música emerge da sua fulguração no sonho

uma casa habituada a receber destroços nomes sem infância
e todo o silêncio de quem colecciona mapas de ilhas extintas

porque o poeta cria seres que não foram feitos para este mundo
e hesita ainda entre vestir um poema ou uma boneca de trapos

quarta-feira, 5 de Agosto de 2009

com antony and the johnsons e a camerata orchestra of manchester














o palco era um aquário de luz primeiro como silêncio capturado
depois como uma manhã revelada sobre cada flor deste mundo
palavra dócil que se exalta como o perfume do verão no alecrim

quando a música te ilumina no centro daquele branco primordial
surges como uma aparição uma inquieta forma de transparência
apenas a tua voz se desloca guiada por um cordel atado a deus

não soluças não sussurras não respiras tudo em ti é melodia
até o silêncio se cristaliza em notas que sabemos ser poesia

aos poucos tornas-te mais evidente como uma coluna apolínea
largas as asas e transformas-te num vestido que irradia pureza
e todo o espaço em volta é comoção um emerso estarrecimento
como se fosse difícil acreditar que deus esteve sempre tão perto

uma flauta uma harpa um pouco de orquestra e as tuas lágrimas
uma oração como outra forma de ressuscitar de toda a tristeza

de repente tudo é mais evidente sem cenário nem cristais volantes
apenas a tua vénia os instrumentos adormecendo e a eternidade

elegia

não era suposto teres esse corpo que te pesa nos ombros
tudo em ti se revolta como um estuário resistindo ao mar
precipícios em vez de rosas pedras no lugar de um nome

nem era suposto as tuas mãos se ocultarem no escuro
as tuas mãos como um cristal no coração da montanha
ânforas envelhecendo o vinho que devia ser celebrado

até agora viveste em tua casa as ruas as cidades as ilhas
e até as pessoas as bicicletas os arvoredos os pássaros

o teu mundo recriado com as tuas óperas os teus gatos
os teus livros como carros velozes trazendo-te para fora
uma vida à espera do espelho certo da porta se abrindo
e a tua pele certificando-se que nada seja mais escarpado

não era suposto arderes como quem grita contra a luz
à espera de um milagre de um regresso à gota de barro

nem era suposto seres tão imenso tão áspero tão sólido
e o vestido tão dócil tão delicado tão transparente tão teu