
para o outono ser a tua casa tudo o que tens de fazer é celebrar
a extensa fermentação dos frutos a inebriante doçura das coisas
que sobreviveram à inquietação do fogo derramado em agosto
depois podes retomar a construção do silêncio o livro das horas
onde guardas as pequenas pedras que foste colhendo do chão
cada uma delas cantando para ti a cor da tarde que te seduziu
e vais ter tempo agora para desenhar no mapa a proa da viagem
a ânsia que te levou à colina azul com o mar em baixo a sonhar
aos poucos os moinhos vão voltar a murmurar com os pássaros
e os arvoredos vão flutuar violentamente contra o esquecimento
assim como assim os teus segredos e o teu alcantilado cansaço
desacorrentando-se no ar como o aguado perfume dos dióspiros
e se tudo te parece pacífico é porque já não circulas apressada
e retomas lentamente o teu lugar na casa o poemário do amor
coleccionando as arestas e as feições dos oblíquos fins de tarde
enquanto aos poucos os teus vestidos consomem a sua lucidez



